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16 de Setembro de 2019

A pedrada da intolerância

Pequena reflexão sobre a atual tensão religiosa na sociedade brasileira.

Jefferson Luiz Grossl, Advogado
Publicado por Jefferson Luiz Grossl
há 4 anos

A pedra lançada contra a menina Kayllane Campos de 11 anos no último dia 14.06, no Rio de Janeiro, demonstra a emergencial necessidade de a sociedade brasileira discutir o tema da intolerância religiosa.

Não se pode mais acreditar que o Brasil é um país em que as diversas crenças convivem de forma pacífica e harmônica. Longe de ser um fato isolado, a agressão ao grupo de adeptos do Candomblé por “fanáticos”, demonstra que o limite da tolerância religiosa em nosso país já foi ultrapassado.

Quando pessoas, com bíblias nas mãos, se acham no direito e no dever de atacar pessoas que não comungam da mesma crença; quando uma bancada religiosa se instala no Congresso Nacional e tenta impor sua crença e influenciar as decisões de um Estado laico; quando temas envolvendo a ciência passam a ser censurados em razão da ideologia religiosa, é sinal de que o país está prestes a adentrar em sua própria “Idade das Trevas”.

Há tempos se é denunciado e noticiado ataques contra os templos e adeptos das religiões afro-brasileiras, por pessoas ditas "evangélicas", que com a bíblia na mão invadem, destroem, agridem e ameaçam templos e pessoas que não compartilham da mesma doutrina religiosa. Noticiou-se, inclusive, à pouco tempo, que no Complexo do Lins, no Rio de Janeiro, traficantes convertidos à seitas evangélicas, proibiram os moradores de usar roupas brancas nas favelas e os terreiros daquela comunidade tiveram que mudar de endereço (http://oglobo.globo.com/rio/crime-preconceito-maes-filhos-de-santo-são-expulsos-de-favelas-por-trafi....

Mas, de onde vem tanto ódio?

Líderes Evangélicos são unânimes em dizer que jamais incitaram seus fieis à realizar qualquer ato de violência contra pessoas de outras religiões. Todavia, entre o discurso e a prática existe uma grande distância. Ressalta-se, para não generalizar, que existem segmentos evangélicos que pregam a tolerância e a paz com as demais religiões e que procuram seguir de forma verdadeira os ensinamentos de Cristo.

Mas, infelizmente, não é necessário realizar grandes esforços para encontrar nos canais do “youtube” ou na própria programação de TV, vários programas de “seitas evangélicas” proferindo discursos denegrindo a imagem das religiões afro-brasileiras e associando seus adeptos à “adoradores do diabo”.

Inclusive, um desses líderes, hoje deputado federal, chegou a “profetizar” o sepultamento de todos os pais e mães de santo do Brasil e o fechamento de todas as casas de “macumba”.

Outra seita, que ganhou notoriedade após protagonizar o famoso “chute na santa”, possui em sua programação um quadro exclusivo de pessoas denominadas de “ex-bruxos” que prestam depoimentos afirmando que quando freqüentavam as religiões afro-brasileiras eram adeptos do “demônio” e praticavam o mal.

Isso, sem contar as diversas novas seitas que ocupam a programação de rádio/televisão que, além de explorar financeiramente seus fieis, utilizam-se de nomes, objetos e instrumentos sagrados das religiões afro-brasileiras para associá-las aos demônios e a maldade. Inclusive muitas dessas “entidades” manifestadas no grande “teatro” dão entrevistas, pedem dízimo e se identificam como a razão dos problemas na vida das pessoas.

Pois bem, é evidente que, ainda que não haja um discurso direto de ódio, tais seitas evangélicas (deixo claro que não são todas) disseminam diariamente o ódio aos adeptos e elementos das religiões afro-brasileiras. Ou seja, ainda que não incitem seus fieis a agredir outras pessoas, eles incutem no psicológico dos mesmos que tais “demônios” são responsáveis pelo mal e o sofrimento da humanidade e que devem ser combatidos, pois “é dever do cristão combater o inimigo”.

Tal mensagem, indubitavelmente, faz com que o fiel, em especial o de baixa escolaridade, tenha a certeza de que os Orixás e entidades das religiões afro-brasileiras são de fato demônios, e seus adeptos são adoradores deles e, portanto, devem ser combatidos.

A alienação e a manipulação da fé, fez com que se organizasse no Brasil a chamada “Bancada Evangélica”, a qual tenta a todo custo impor os conceitos de sua crença ao Estado, que na teoria é laico, e perseguir as chamadas “minorias” (negros, gays, índios, sem-terras, não cristãos, etc.). Exemplo maior disso, é a ridícula proposta de tipificação da “cristofobia” em verdadeira vingança ao projeto apresentado pela criminalização da “homofobia”.

Mas, no que tange a intolerância religiosa, o que poucas pessoas sabem e que pouco se divulga, é que a mesma está enraizada no próprio racismo, decorrente do longo período de escravidão ocorrido Brasil.

É espantoso saber que há pouco mais de 127 (cento e vinte e sete) anos atrás, neste país, o negro era tido como animal. Não possuía “alma” - segundo a igreja - e era vendido como qualquer outro ser irracional. Portanto, se não respeitavam sua dignidade como humano, como se poderia esperar respeito à sua cultura e religiosidade? Suas práticas religiosas eram tidas como abomináveis e se não seguiam os princípios da igreja, só poderiam ser adoradores do demônio.

Com o fim da escravidão, o negro passou a ser reconhecido como humano, porém os ecos das ofensas, discriminações e humilhações teimam em soar até hoje.

Pessoas ilustres, brancas, da alta sociedade, se renderam a religiosidade Africana, mas isso pouco mudou a concepção embutida na sociedade de que tal prática é contrária as “leis de deus”.

Aproveitando-se de tal preconceito, algumas das seitas evangélicas, em especial as chamadas neo-pentecostais, no intuito de atrair fieis e ganhar popularidade, passaram a reproduzir as inverdades do tempo da escravidão e os Orixás e guias das religiões afro-brasileiras voltaram a ser associados aos demônios. Contudo, se esquecem os propagadores de tais absurdos que o demônio é uma figura própria do cristianismo. Na religiosidade afro-brasileira inexiste a concepção de inferno e demônios.

Tais seitas afetam de tal forma o psicológico dos fieis, que os mesmos passam a acreditar que estão em “guerra” e que devem eliminar, à todo custo, "a obra" e os adeptos do “demônio”. Isso explica os ataques gratuitos, as destruições de templos e as inúmeras pedradas que diariamente atingem o chamado Povo de Santo.

É necessário repensar a questão das concessões de rádiodifusão para seitas religiosas, visto que muitas delas destinam-se exclusivamente à propagação do ódio e discriminação, além é claro, da arrecadação de dinheiro a seus líderes. Outra medida essencial, seria o fim da imunidade tributária religiosa, visto que tais igrejas são utilizadas para a realização de “lavagem de dinheiro” e financiamento de campanhas de candidatos fundamentalistas.

Essas, entre outras medidas, devem ser discutidas de forma emergencial, pois caso contrário, correr-se-á o risco da democracia brasileira se tornar uma “teocracia fundamentalista”, uma versão cristã do Estado Islâmico.

7 Comentários

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Ótimo texto! Já esta mais do que na hora do tema ser discutido no Brasil, acabar de uma vez por todas com determinados preconceitos. continuar lendo

Há uma ala de evangélicos que se pode sim chamar de seita evangélica, essa ala está fazendo hoje algo muito parecido com o que católicos fizeram na era da inquisição... continuar lendo

O problema é que para se discutir o tema, deve se ir com o espírito desarmado; pena que nem todos estão preparados para se desarmar. Porém, no dia em que todos, sem exceção, estiverem verdadeiramente Cristianizados, a coisa fluirá naturalmente. continuar lendo

O problema começa exatamente em se pretender que "todos, sem exceção", sejam "verdadeiramente Cristianizados". Partindo de tal premissa, não há diálogo possível, já que ela exige da outra parte - o não cristão - que deixe de ser o que é.
(A menos que aqueles que o senhor espera ver "verdadeiramente Cristianizados" sejam os que se dizem cristãos. Não é isso, entretanto, que a frase como está redigida dá a entender.) continuar lendo

De fato, também não entendi o que você quis dizer como "todos estiverem verdadeiramente cristianizados". Pode nos explicar? continuar lendo

O problema em discutir o tema começa, mesmo redundante, primeiro, pela segregação imposta pela sua afirmação "...sem exceção, estiverem verdadeiramente cristianizados...".
Somos sabedores da existência de outras religiões em nosso país, destacando a budista, seicho-noiê (assim que se escreve?), muçulmana, umbanda, dentre outras, logo, como excluí-las do debate?
Tempos atrás após o ataque ocorrido na França, chegaram a proferir danos em mesquitas no Paraná, o que demonstra o preconceito em relação a atos isolados de fanatismo religioso.
Temos que conviver com as várias ideologias praticadas, pacificamente e ordeiramente, embora discorde daquelas onde o dízimo passa por um filtro separador do tipo: "de três, dois prá mim, um pro resto". Sobre isto, comento uma passagem que presenciei, e como forma de não generalizar a corrente ideológica, não citarei o nome da Igreja, mas tempos atrás em uma churrascaria conceituada em Santa Catarina, por falta de espaço ocupei uma mesa próxima ao local onde várias outras mesas foram unidas e lá estavam em torno de 25 pessoas almoçando, e não foi difícil ouvir claramente as deliberações a serem tomadas a partir daquele encontro regado a bom churrasco. Ao se referirem a inadimplência de fiéis quanto ao dízimo, foi colocado em votação como se daria então a cobrança, quando um deles falou, após algumas sugestões: Carnê, carnê, que nada, não pagam do mesmo jeito, tem que partir para boleto bancário e a despesa do banco tem que sair por conta deles (fiéis), chega de fechar o mês em baixa, temos que manter a cota estabelecida pelo....... , e cobrar o boleto pago, se pagar após o vencimento, cobrar multa e juros."
Como falei antes e sem generalizar a corrente, porém, supondo se tratar de entidade cristianizada, questiono, como discutir um tema de tamanha peculiaridade, na presença de representantes que agiram com tamanha desfaçatez como a citada acima, e analogamente ao que se vê nos programas na televisão, sem"expurgar o demônio" entranhado naqueles templos?
Obrigado! continuar lendo